CRÍTICAS DOS ESQUETES - 8º FESQ - por Jiddu Saldanha

MENINO DE MOONY NÃO CHORA
Grupo: Gene Insano Cia. de Teatro / RJ
Autor – Livremente inspirado na obra de Tenensee Williams
Direção – Anilia Franciska
Elenco: Leonardo Gall e Sonia Margarita


O ponto alto do espetáculo “Menino de Moony não Chora” foi o desempenho impecável dos atores Leonardo Gall e Sonia Margarita. Eles apresentaram ótimo equilíbrio na técnica de atuar e estavam bem equalizados no uso da voz. Tinham boa dicção e ótima projeção, tanto que foram indicados melhor ator e atriz.  O espetáculo valorizou bastante a arte da atuação. Os personagens eram ricos em recursos dramáticos, reproduzindo com perfeição o universo sombrio existente na obra de Tenensee Williams.
A proposta da encenação apresentou-nos uma profusão de elementos difíceis de juntar no palco; um telão ao fundo de grandes dimensões; um cenário que abria entre as extremidades do palco onde podíamos ver duas cadeiras eqüidistantes ligando os atores – praticamente imóveis – por uma espécie de “cordão umbilical”, este, formado por panos que complementavam o figurino das personagens. Tais elementos que se ligavam entre si, faziam a cena se desenrolar numa junção entre as partes e o todo.
O que faltou foi harmonizar a complexidade da proposta.
Uma cena tridimensional e essencialmente teatral parecia conflitar com a proposta da projeção de imagens no telão criando um problema de foco para a platéia que tinha de decidir entre o telão e a cena em si. Se por um lado o conjunto nos pareceu interessante, há que se aprofundar a pesquisa que identifique a real função de ligação dos elementos postos na cena.
No mais, a peça apresentou um conjunto harmonioso entre luz, interpretação e cenografia e levou o público a uma viagem multimídia onde o casamento entre diversas linguagens parece a um passo de dar certo.
Tenensse Williams: 1911 – 1983. Dramaturgo estadunidense nascido em Columbus, Mississipi, ganhador de diversos prêmios internacionais, considerado uma dos mestres do naturalismo do teatro mundial.



 (Jiddu Saldanha)

.

CRÍTICAS DOS ESQUETES - 8º FESQ - por Jiddu Saldanha

COLEÇÃO PARANÓIA

Grupo Casa Bruta Coletivo de Teatro / Belo Horizonte – BH

Direção: Alessandro Aued

Autor: Criação Coletiva

Elenco: Júlia Marques, Lira Ribas, Pedro Plazzi, Ana Normand, Pedro Reis e Henrique Cordoval

Para além de um cena teatral em um festival de esquetes vejo neste “Coleção Paranóia” um experimento radical, uma espécie de postulado cênico visando uma outra possibilidade de interação com o expectador. Um espetáculo que causou forte sentimento de repulsa na platéia deixando marca indelével e que todos comentaram depois.

Cheguei a ouvir a seguinte frase de bastidores “este é um espetáculo que a gente odeia na hora e ama depois”! Pudemos constatar tratar-se de um trabalho com forte pesquisa e muito bem embasado e que produziu resultados condizentes com tendências que vão do teatro pânico de Fernando Arrabal ao cinema visual do chileno Alejandro Jodorowsky, com fortes referências aos mangás de Shintaro Kago.

O resultado foi um grupo de atores andróginos com grande vigor físico, executando cenas coreografadas e articuladas dentro da estrutura dos mangás, onde o grosseiro carregado de ironia, repulsa e deboche buscou confrontar valores das sociedades contemporâneas tendo como contraponto o forte tradicionalismo japonês.

Pude perceber que o grupo “Casa Bruta Coletivo de Teatro” esteve imerso numa pesquisa que aponta caminhos ousados e que busca na subversão total de costumes e padrões tanto éticos como estéticos, uma forma de teatro onde “o belo”, “o formoso” e “o bonito”, não interessam tanto. Antes, o grupo se ocupa do absurdo, do pânico e do maldito.

O que talvez tenha enfraquecido o desenpenho do grupo foi o que nos pareceu ser uma espécie de “teatro mensagem” onde o tema “aborto” foi colocado a partir de parâmetros bastante moralistas, não dando ao público, o tempo para refletir de forma mais profunda sobre a questão e/ou talvez a questão tenha sido colocada como uma discussão que parece um pouco anacrônica, não produzindo o desdobramento político esperado.

Talvez, a gama de informações e a complexidade da encenação tenha ofuscado o tema, ou o tema não seja mais tão polêmico nos dias de hoje.

Fernando Arrabal – (Espanha – 1932) Poeta e Dramaturgo espanhol, viveu grande parte de sua vida em parís e ficou conhecido por suas peças de teatro que flertavam com Teatro do Absurdo mas que foram ponta de lança do movimento Teatro Pânico. Peças como “Pic Nic no Fronte”, “Fando e Lis” e “O Arquiteto e o Imperador da Assíria” fizeram e fazem grande sucesso na dramaturgia mundial até os dias de hoje.

Alejandro Jodorowki - (Chile – 1929) Cineasta, escritor, poeta e performer, estudou mímica com Marcel Marceau nos anos 50 tendo, junto com Fernando Arrabal, criado o movimento “Teatro Pânico”. Fez o aclamado filme “Santa Sangre” que teve grande aceitação junto à crítica mundial. Atualmente trabalha com o cineasta estadunidense David Lynch.

Shintaro Kago – (Japão – 1969) – Escritor e desenhista, dedica-se ao mangá, sua obra é marcada pela escatologia, modificação do corpo, terror e quebra de padrões tradicionais da cultura japonesa. Arrebata uma legião de fãs pelo mundo todo, atualmente.

(Jiddu Saldanha)

CRÍTICAS DOS ESQUETES - 8º FESQ - por Jiddu Saldanha

MOVIMENTO MÍNIMO
Cia. Movimento Mínimo
Londrina – PR
Direção: Ceres Vittori
Autor: O Grupo
Elenco: Diego Trevisan e Cristiane Monteiro


Movimento mínimo surpreendeu o festival deste ano. Do ponto de vista da cena, dois artistas virtuosos com ótimo desempenho corporal conquistaram o público ao mostrarem leveza e ritmo capaz de provocar êxtase na platéia.
O espetáculo com um intenso rigor formal tinha uma proposta suave. A fluidez dos artistas dava um tom quase lírico às cenas despertando uma poética profunda e constante.
O ator Diego Trevisan e a atriz Cristiane Monteiro contracenavam de forma tão simbiótica que algumas vezes pareciam formar um plasma, dando à direção de Ceres Vittori um respiradouro para que pudesse fluir nos desenhos cênicos e nas formas corporais e na ocupação de fundo e centro da cena.
O espetáculo tinha um estranho equilíbrio, pois as cenas apontavam sempre para um mesmo lado e a movimentação dos atores iam de um lugar a outro do palco em tempos que se completavam de forma objetiva e isso proporcionava não só uma noção de equilíbrio como de limpeza e economia de signos.
O que sobra em vigor físico e ritmo corporal parece lhes faltar quando se trata do uso da voz. É bom lembrar que o texto tem um forte valor nesta cena, pois, ainda que seja bem curto não pode perder o sentido dramatúrgico que é fundamental e complementa o espetáculo.

(Jiddu Saldanha)

CRÍTICAS DOS ESQUETES - 8º FESQ - por Jiddu Saldanha

PAPO FURADO
Grupo: Chacrinha – Rio de Janeiro/RJ
Direção: Gustavo Martinez
Autor: Jô Bilac
Elenco: Leandro da Matta, Wana de Souza Cruz, Rosangela Andrade e Gilberto Machado. (atriz substituta – Aline Vargas)

Desopilando o Fígado.

A Comédia muitas vezes é considerada um gênero menor quando apresentada em festivais de teatro e isso gera uma espécie de preconceito ao contrário; nos perdemos em avaliações estéticas outras e esquecemos que o papel do teatro é fazer pensar e divertir, não necessariamente nesta ordem. A comedia ainda tem seu lugar quando nos deparamos com trabalhos desconcertantes como este desopilante “Papo Furado” do consagrado autor de esquetes Jô Bilac, realizado pelo grupo “Chacrinha” e dirigido por Gustavo Martinez.
Um dos segredos da comédia é que você precisa ter sempre um ótimo ator que faça a piada ganhar potência e talvez um ator melhor ainda fazendo o que chamaríamos numa linguagem mais popular de “escada”. Esta forma de fazer teatro é a fórmula perfeita para que a comédia se instale e ganhe seu devido valor.
O Esquete “Papo Furado” realizou a feliz surpresa de escalar um elenco cúmplice, divertido e com um ótimo jogo de cena, destacando os dois artistas centrais da trama com performances impecáveis. O Ator Leandro da Matta com sua verve cômica e ótima dicção dava o texto no tempo exato, coisa fundamental num teatro de comédia, já a atriz Aline Vargas, não menos aparelhada, destilava elegância, tempo preciso e desenvoltura corporal a cada nova investida o que fez o esquete ser alçado à categoria de bom teatro.
O que sugerimos para a melhora desta cena é um cuidado mais esmerado com a questão técnica, talvez uma luz mais ousada possa realçar as texturas cênicas sem competir com o brilho dos atores que, numa comédia são mais importantes do que tudo.

__________

A OUTRA HISTÓRIA DA BARBIE
Grupo Os Papibaquigrafos
Rio de Janeiro / RJ
Direção: João Sant’ana
Autor: Andrezza Abreu, Karina Ramil e Anita Chaves.

Espetáculo divertido e correto com uma ótima desconstrução do universo fake, vazio e estranho que é para nós, a cultura estadunidense, através de um de seus ícones, a popular boneca Barbie. A atriz que desempenhou o papel conseguiu apresentar um estilo que mostrava ironia e beleza numa movimentação corporal que ia do centro à frente da cena.
Com o texto na ponta da língua e o “taime” de humor, as duas outras atrizes davam ótimos apartes fazendo disparar o imaginário da platéia numa “viagem” que oscilava entre o ingênuo e o jocoso.
O humor ácido e muito bem articulado pela dramaturgia do texto fez a peça embarcar numa espécie de comédia blazé com pitadas ácidas de crítica sutil ao consumismo e “falta do que fazer”! Um deleite para o público que riu muito e captou a crítica social proposta nas entrelinhas do esquete.
Destaco também a combinação perfeita entre proposta cênica e visual, através de figurino e cenário e principalmente o jogo de cores que dava harmonia à comédia no seu entorno.
O que talvez possa ajudar o trabalho a melhorar é um pouco mais de concentração das atrizes em dar o texto com dicção e energia para que o trabalho não vire um emaranhado de piadas, ao invés disso, investir mais na carpintaria da arte da atuação, melhorando a voz e a respiração para que o resultado se harmonize mais com a proposta.

(Jiddu Saldanha)

______________

E SE FOSSE VOCÊ AQUI... EXATAMENTE AGORA.
Grupo: Clã de Nós – Rio de Janeiro /RJ
Autor: Léo Castro
Direção: Bruna Campello
Elenco: Léo Castro

O ponto alto deste esquete foi o brilhante desempenho do ator Leo Castro que, com uma olhar seguro e uma interpretação firme conseguiu arrebatar o público levando-o para todas as direções cabíveis sem perder o fôlego em nenhum momento sequer.
O ator vigoroso fisicamente e cheio de desenvoltura no palco parecia fazer com facilidade algo que exige muito já que não é tão fácil interpretar tendo que segurar a respiração do público para fazê-lo explodir em gargalhadas no momento certo.
Apesar da proposta da direção negar tratar-se de um stand up comedy, a proximidade com esta linguagem é notória e até nos  perguntamos se não seria melhor assumir a cena em sua vocação natural, porque não? Não vejo mal algum nisso!
Discussões e nomenclaturas à parte,  acho válido mostrar algo assim num festival com tendência panorâmica como o de Cabo Frio. Fica aqui, no entanto,  a sugestão para que este brilhante ator volte ao festival com um trabalho que possa atender a seus recursos dramáticos mais profundos. A cena “Se eu Fosse Você... Exatamente Agora” deu uma indicação de melhor ator ao Leo Castro mas talvez não tenha revelado as pinceladas mais sutis de sua forma de interpretar.

(Jiddu Saldanha)